“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12.2)

Antes de transformar o mundo, a Igreja precisa ser transformada. Essa é a ordem que Paulo apresenta em Romanos 12.2. O apóstolo usa ali duas palavras que se opõem. A primeira descreve alguém que se deixa moldar pelo mundo, como massa colocada numa fôrma, que acaba tomando o formato dela. A segunda é metamorfose, a mesma palavra usada para a transfiguração de Jesus no monte (Mt 17.2). Ela indica uma mudança que vem de dentro para fora. E Paulo não fala de um esforço isolado do crente: é uma obra contínua que Deus realiza em nós, e à qual nos rendemos dia após dia. É disso que o mundo precisa. Não de uma igreja que apenas fale de mudança, mas de igrejas cheias de pessoas transformadas. Uma vida transformada transforma relacionamentos, e relacionamentos transformados alcançam a cidade.

Uma igreja saudável, não perfeita

Uma igreja saudável não é formada por pessoas perfeitas. É formada por pecadores que foram perdoados e reconciliados com Deus pelo sacrifício de Cristo, e que sabem que permanecem de pé somente pela graça. A igreja perfeita só existe no céu. Aqui na terra, ela é uma família de pessoas que ainda estão crescendo.

Por isso, a igreja muitas vezes vai frustrar nossas expectativas. Mas isso não nos dá o direito de abandoná-la ou de provocar divisões. Ninguém rompe com a própria família por causa de algumas diferenças. Dietrich Bonhoeffer, pastor alemão que viveu a comunhão cristã em meio à perseguição nazista, fez um alerta em seu livro Vida em Comunhão: quem ama mais o seu sonho de comunidade do que a comunidade real acaba destruindo-a. Muitas vezes, o que precisa mudar primeiro não são os outros, mas as nossas expectativas. A mudança que queremos ver na igreja começa em nós. Por isso a Escritura nos chama a não abandonar a congregação, mas a nos estimularmos uns aos outros “ao amor e às boas obras” (Hb 10.24-25).

Uma comunhão que o mundo pode ver

Jesus disse que o mundo reconheceria seus discípulos pelo amor que tivessem uns pelos outros (Jo 13.35). O filósofo e pastor Francis Schaeffer chamou esse amor visível de “a apologética final”, ou seja, o argumento que o mundo não consegue refutar. Lesslie Newbigin, que foi missionário na Índia por décadas, disse algo parecido. Para ele, a melhor forma de o mundo entender o evangelho é ver uma igreja que realmente crê nele e vive de acordo com ele.

Foi isso que aconteceu com os primeiros discípulos. Quando Pedro e João falaram diante das autoridades, os líderes reconheceram “que eles haviam estado com Jesus” (At 4.13). Quando a cidade percebe isso em nós, a transformação já começou.

O poder que vem da oração

A igreja de Atos cresceu de forma extraordinária, e o segredo não foi uma estratégia sofisticada. Os apóstolos decidiram dedicar-se “à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4). Hoje corremos o risco de confiar tanto nos nossos métodos que a oração fica em segundo plano. E. M. Bounds, um pastor do século XIX conhecido por seus escritos sobre oração, lembrava que a Igreja não precisa de mais estruturas ou métodos novos. Precisa de homens e mulheres que o Espírito Santo possa usar: pessoas de oração. Deus não unge planos; Ele unge pessoas. É a oração que quebra correntes e libera o poder do evangelho sobre um mundo necessitado.

Amor pelos que ainda não conhecem a Cristo

Se Deus nos salvou, por que não nos levou imediatamente para o céu? Paulo responde: somos “feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Ef 2.10). Estamos aqui para glorificar a Deus e testemunhar da sua graça. Bonhoeffer resumiu isso numa frase: a Igreja só é Igreja quando existe para os outros.

Mas ninguém aprende a ganhar almas sem antes aprender a amá-las. E esse amor nasce da intimidade com Deus. Quanto mais perto estamos do coração do Pai, que “amou o mundo de tal maneira” (Jo 3.16), mais compaixão sentimos pelos perdidos. Jesus chorou sobre Jerusalém (Lc 19.41). A pergunta que fica para nós é: por qual cidade estamos chorando?

Perseverar até a colheita

Os grandes homens e mulheres de Deus foram, na maioria das vezes, pessoas comuns que simplesmente não desistiram. Paulo nos encoraja: “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6.9).

Diante de uma sociedade cada vez mais incrédula, não temos tempo a perder. Ou seremos agentes de transformação, ou seremos obstáculo para que as pessoas venham a Cristo. O chamado é claro. Resta saber se vamos nos render à obra de Deus, que transforma primeiro a nós e, por meio de nós, o mundo à nossa volta.